Mulheres limpam sozinhas os mangues do qual dependem para sobreviver

Para ver limpo o ambiente do qual dependem, trabalhadoras trocaram a coleta dos mariscos pela remoção das manchas de óleo que devastaram os mangues de Cabo de Santo Agostinho (PE)
Se limpar o óleo que chega às praias do Nordeste é difícil, exige paciência e muita disposição (além de equipamentos apropriados), limpar as áreas de mangue é um trabalho ainda mais complexo. E, ao contrário do que se viu na areia, onde mutirões de voluntários estão dispostos a deixar tudo como era antes, nos mangues são os pescadores e marisqueiras sozinhos que estão imbuídos da tarefa. Foi esse o cenário que encontramos na praia de Suape, município de Cabo de Santo Agostinho, e no mangue que sobe pelo rio Massangana, em Pernambuco.
Desde que o óleo chegou ali, no fim de semana do dia 19 de outubro, as marisqueiras trocaram a pesca do caranguejo, ostra e aratus pela “pesca” da substância viscosa e tóxica que se espalhou pelo mangue. Elas saem equipadas com luvas, máscaras e botas e voltam, horas depois, com sacos repletos de óleo e fragmentos do mangue contaminado e morto.
Fazem isso porque têm pressa: querem ver limpo e saudável o ambiente do qual dependem para sobreviver. As vendas de pescados da região despencou e a população já está sentindo os efeitos negativos das manchas também em suas vidas. 
Quando perguntei para Vanusa de Santana por que ela estava indo todos os dias limpar o mangue ela foi clara:  “Porque isso depende da gente. Se a gente não fizer, quem vai fazer?” Ela e outras marisqueiras destacaram que os mangues não estão recebendo a mesma atenção que as praias, e que tiveram dificuldades em conseguir EPIs (Equipamentos de Proteção Individual) e até alimentos para passar o dia nas limpezas.
Aqui é uma área pobre, né”, disse Valéria de Alcântara sobre a falta de ações de limpeza junto a eles.  Eu vi no Paiva [praia do Paiva, em Cabo de Santo Agostinho, no mesmo município que Suape], que é uma área de risco. Isso foi televisionado. E eles deveriam saber que a gente paga tanto imposto quanto eles”, completa.
Vocês estão vendo alguém de fora, de outro lugar?”, perguntou Vanusa. “Se esqueceram da gente. Então, a gente mesmo se reúne, dá o braço e vamos lá limpar. E vamos conseguir”, finaliza, esperançosa sobre a conclusão da limpeza tão complexa do mangue. 
Em alguns casos, a limpeza do mangue nem é recomendada pelos especialistas, mas as marisqueiras dizem que vão continuar. Pedem ajuda de mais equipamentos e voluntários para acompanhá-las. 
Segundo Vandécio Santana, guia turístico em Suape, destaca o trabalho que elas têm feito. “Se a nossa família a gente quer proteger, imagina a nossa vida, do que a gente vai alimentar a nossa família. Aí é que a gente quer proteger mais ainda. A gente precisa de ajuda pra retirar esse material que está aqui”, disse.
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A questão sensível é que essas trabalhadoras estão deixando de ganhar seu sustento enquanto limpam o mangue. E, em Pernambuco, só quem pesca camarão e lagosta tem direito ao seguro-defeso – uma remuneração de um salário mínimo dada aos pescadores durante a temporada em que não podem trabalhar para que as espécies se reproduzam. Ou seja, as marisqueiras estão de fora por enquanto. 
Dias atrás, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, afirmou que o pagamento deverá ser estendido a esses profissionais. E o governo de Pernambuco está cadastrando os pescadores e marisqueiras para um futuro pagamento. Mas por hora, eles ainda não receberam nada e não sabem quando poderão retomar as atividades. Enquanto isso, a população já não compra mais nada que venha do mar e sua fonte de renda minguou. 
Ainda que o secretário de Pesca e Aquicultura do Ministério da Agricultura, Jorge Seif Junior, tenha afirmado que os pescados do litoral nordestino podem ser consumidos normalmente, uma pesquisa da Universidade Federal da Bahia (UFBA) examinou cerca de 30 animais marinhos de onde houve registro de manchas de óleo. Todos estavam contaminados os pesquisadores recomendaram que se evite, por enquanto, o consumo.
Os mangues são berçários de vida marinha e, por isso, cruciais para os oceanos. E, como disseram os pernambucanos com quem conversamos, é também de onde vem a vida deles.

Greenpeace

 

Redação

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